Eu me lembro bem. Eu te olhava e me enchia de sonhos, coisas a realizar. Eu e você. A gente brincava de contar paraquedistas do exército e de caçar carros vermelhos entre os que corriam apressadamente na avenida. Você desenhava tão bem que uma vez fez uma imitação daquele quadro do Dalí, dos relógios. Eu não sabia quem era Dalí, então fiquei encantada com sua originalidade. Havia um infinito de coisas que poderíamos fazer sem que eu enjoasse. A inocência é mesmo uma bênção. Às vezes.

Demorei a entender o motivo de te ver somente uma vez ao ano. E quando aconteceu, a vida começou a ter gosto de mingau queimado - daqueles que minha mãe fazia quando esquecia que tinha panela no fogo. Aliás, foi por isso que eu decidi fazer os meus próprios mingaus. E não falo metaforicamente, apesar de que daria uma ótima metáfora. Eu os fazia todos.

Tenho raras, quase nenhuma, lembranças em que recebia carinho dela e acho que foi por isso que gostei muito de você naqueles meus anos iniciais. Os poucos dias em que estávamos juntos eram sempre carinhosos. Hoje, depois muito pensar e escrever em blocos de papel, acho que o carinho dela era justamente aquele aquele mingau queimado.

Eu nunca os cobrei as falhas que se sucederam. Bem, elas não se sucederam de fato, eu é que as notei mais tarde. Foi como se o tique-taque do relógio revelasse a vida à mim da mesma maneira que o céu nublado dá lugar ao sol depois de uma noite fria. E aí, se a gente pensar na sinergia da vida, vai ver que essa ideia sempre esteve em mim e é por isso que amo os dias frios. Não sei. Tem algumas coisas que aceito não saber.

De fato, eu nunca os cobrei as falhas que se sucederam. Não assim como vocês têm feito agora, com palavras, choros, gritos e birras. Feito crianças amedrontadas com o perigo iminente da morte. Ora, mas esse perigo não foi sempre iminente? A velhice é só um indício. Também devo confessar que não a vejo assim como um perigo, sabe... Em alguns casos, é uma libertação. Mas ai de mim dizer isso perto de vocês.

De qualquer forma, talvez eu os tenha cobrado, sim. Mas se o fiz, fiz de um jeito meu, um jeito muito particular, um jeito assim, eu poderia dizer, tão metafórico que se perdeu em seus fins. Tentei de todas as formas dizer que eu estava infeliz, mas vocês não ouviram. O que mudou de lá pra cá não foi a felicidade, quem me dera!, mas saber que a infelicidade faz parte dos meus dias. Aceite-a como quem aceita uma xícara de chá, ainda que prefira um bom e velho pingado.

Eu metaforizei tudo desde lá, desde a casa de bonecas que ganhei num natal difícil no qual todos estavam bêbados e esqueceram que uma criança como eu deveria comer em algum momento. Nunca falei assim, com todas as sílabas. Sigo metaforizando. Dizem que é porque sou pisciana, mas me recuso a pensar assim, tão matematicamente. "Tinha que ser pisciana", eles responderiam.

Se eu pudesse dizer de uma outra maneira, diria que a morte é só um destino, que o caminho sempre esteve aí pra gente percorrer e, droga, lá vou eu de novo criar alegorias pra me expressar. Ah, diria que há perdão, mas que não há como voltar. Que o que se fez está feito. Pronto. Que o caminhar é o matar das horas, dos segundos, dos minutos e que a morte em si é só mais um passo.
acho que estava com uns 14 anos quando fui à são paulo com minha mãe pela primeira vez. assistiríamos o fantasma da ópera no teatro municipal, mas, como ficaríamos o fim de semana todo, pedi pra irmos à 25 de março. e foi lá que comprei meu primeiro e único disco da cyndi lauper, uma versão em cd-room do que foi o LP de true colors.

eu me lembro da sensação com uma leveza que ainda hoje me faz sorrir. ver sua cabeleira colorida estampando aquele encarte fez com que eu me sentisse menos esquisita com meus fios cor-de-rosa; minhas meias listradas em preto e branco; e meus cordões de bolas gigantescas. a verdade é que, à época, eu me sentia completamente deslocada em todos os ambientes que frequentava. eu, com minhas opiniões formadas sobre tudo, sem mesmo saber o que tudo poderia ser. "coisa da idade", teria dito minha mãe a algum parente que demonstrou preocupação com minhas decisões improváveis.

é certo que não vivi seu auge, o de lauper - inclusive, "girls just wanna have fun" já tinha mais de 20 anos quando eu a conheci; mas o que ela fez ecoa em mim desde minha adolescência rebelde. parece que a gente quer sempre ver um pouco da gente no outro, mas também um pouco do outro na'gente. ser aceito, no fim. e foi assim entre mim e ela.

acho que, olhando daqui e agora, eu não queria um mundo só meu no qual eu pudesse habitar sozinha. aliás, se o quisesse, teria sido uma das minhas maiores frustrações. o que eu queria era que outro mundo, diferente daquele que me rodeava, fosse possível. eu não queria ser uma garota comportada, afinal. e no instante que soube da existência de cindy lauper, eu percebi que esse outro mundo não só era possível, como também existia há décadas. e, bem, nele, as garotas só queriam se divertir...
foto: Juane Vaillant
Eu não conseguia me lembrar com qual blusa eu estava. Lembro que fiquei pensando em usar uma blusa da isabela que eu adoro. O quarto dela fica a quinze passos do meu e era tarefa fácil. Mas eu desisti e fui com essa outra. Eu não consigo lembrar da outra. Mas acontece que nesse meio tempo éramos apenas eu e minhas ideias.

Quando eu sai de casa, com essa blusa misteriosa, tudo virou um borrão. A minha sorte foi a T5i. Eu estava com a câmera e ela era o motivo perfeito para que meus olhos ficassem escondidos e para que minha expressão pudesse assumir esse tom sóbrio e concentrado. Eu não precisava sorrir. Mas mesmo assim, eu queria. Toda vez que um ou outro menino desses, cheio de energia e brilho nos olhos vinha me falar alguma coisa, qualquer coisa, eu prestava atenção. Eu sorria. Eu cheguei a gargalhar um em certo momento.

Um deles me contava uma história melódica e rimada e eu desejava que a história nunca acabasse. Amaldiçoei meu inconsciente. O que eu pensei era sobre você. Na minha cabeça, ritmado também, veio um pensamento: “Ele tem metade da sua idade e o dobro do seu talento”. Mesmo que eu acreditasse realmente nisso, o que eu pensava tinha um ar de desdém. Um quê de recalque. Eu só queria que você não estivesse ali. Mas você estava.

Eu não podia ignorar sua presença que fazia tanta questão de ser ausência. Uma névoa de desapontamento e aflição que eu não conseguia esconder. Ao menos não de mim mesma. A T5i, como boa amiga que é, não me ajuda só a ficar bem, mas acoberta minhas merdas. Todas elas. Deixando eu te lançar olhares furtivos por de trás da lente propositalmente tão focada.

E eu só pensava em uma coisa: Casa. Eu quero ir para casa. E eu pensava em como ir. Como sair de fininho? Como andar até lá sozinha? Como? Enquanto isso eu rezava para que alguém falasse ou fizesse algo emocionante ao ponto que eu pudesse chorar. E foi dito. Mas eu não chorei. Tinha uma ponta de orgulho entalada na minha garganta e no canto dos olhos. Me senti boba. Criança. Contraditória. Diminuta. Cheia de mim mesma. Fui.

Quando entrei no meu quarto um misto de dor, surpresa e inesperadamente de felicidade me invadiu. Eu estava chorando. Chorando por algo que nunca imaginei que choraria. Me culpando por sentir. Me remoendo por não ser de ferro. Mas algo tinha acontecido. Quando pintei meu quarto, decorei a sala, carreguei móveis, cozinhei, chamei os amigos pra beber, em todos esses momentos eu chamava essa casa de “minha”. Só que no momento em que eu desabei no chão do quarto foi que eu tive certeza. Estava em casa. E isso era tanto, tanto, que eu estava feliz. Apesar de você.

Se eu não fosse eu, talvez seria uma flor, um pássaro... Ou quem sabe um carro? Por acaso posso eu escolher?

É claro que eu queria ser qualquer coisa desde que fosse melhor, talvez um ser humano, um objeto, animal criado em casa ou não. Talvez nem nascer eu queria, mas aqui estou.

Se eu fosse outra coisa eu queria apenas ser eu,com os mesmos defeitos, manias, choros e alegrias, porque esse meu eu cresceu, amadureceu e percebeu que não precisa almejar ser outra pessoa ou coisa para continuar a sonhar. É apenas ser uma nova "eu" todos os dias.

Se eu não fosse eu, talvez nem aqui escreveria!
Prazer mundo dessa vez não deu, agora o mundo é meu.
Hoje a criatividade não rendeu, prazer meninas essa sou eu.
Brenda Almeida tem 19 anos, ama escrever, mas vive dizendo que as pessoas podem não gostar do que ela escreve (a gente discorda!). Sempre muito metafórica, ela é também uma das alunas do Projeto Elisas 2017 - Oficina Literária Para Meninas.

Você se importa se eu te levar comigo hoje? Foi o que pensei em perguntar. Mas pensei só depois, quando já deitava a cabeça no travesseiro, imaginando as coisas que deixei de dizer. Foi aí que pensei em você e nesse seu sorriso torto. Veio também seu olhar arisco que foge de mim sempre que o caço. Caço, feito bicho mesmo. É que se eu pudesse eu te colaria em mim, mas só por um segundo. Depois perguntaria o que você gosta de fazer da vida, porque nem isso eu sei.

De que cor é o seu olho? Você escapa sempre que estou quase te alcançado. Talvez tenha alguma coisa do lado daí também que eu ainda não consegui ler. Na próxima vez, pego meu olho e boto na frente do seu. Na maior cara de pau, que é pra ver se você me vê, me enxerga.

Posso ser essa coisa desengonçada, mas me toca também o olhar não correspondido. Ora, é só um olhar, afinal. Não é como se eu fosse a própria medusa, é? Se te disseram, esquece. Quem me dera esse poder todo.

Da próxima vez, vou colocar meu cheiro bem no meio no seu nariz. Só pra ver se assim você me percebe, me nota. Ah, o que é que tenho que só um "oi" assim, acanhado, desiludido, afastado, tenho merecido? Às vezes, meu bem, o olhar é mais íntimo do que o próprio beijo, sabia? Sabe, né? Aposto que sabe.

Durante muitos anos ser negro significava que você provavelmente iria ser um escravo e não teria direito algum. Mas teria que cumprir seus “deveres” como, por exemplo, servir ao seu senhor – que era branco e rico. A Lei Áurea determinou a abolição da escravatura no dia 13 de maio de 1888 assinada pela Princesa Isabel. O tempo passou e em alguns vilarejos, onde não existe fiscalização, ainda tem escravidão.

Estamos no século XXI e muitas pessoas dizem que negro não é gente entre outras coisas. Ruim mesmo é quando você escuta “qual é a sua cor?”. A pessoa é negra, porém ela vai falar “ah, não sei. Acho que sou branca, parda” e não diz sua cor. Às vezes, ela não diz porque tem preconceito contra si mesmo, ou porque não explicaram para essa pessoa qual é a sua raça.

A nossa sociedade infelizmente impõe um padrão de beleza às mulheres: alta, magra, olhos claros e branca com cabelos lisos e loiros. Na infância, é bem provável que você nunca ganhe uma boneca negra e sim uma boneca de cor clara. As pessoas vão falar para você “cabelo crespo é ruim”, “alisa esse cabelo de pico”. Ei, não alisa seu cabelo, não! Deixa ele assim do jeito que ele é. Cabelo também diz muito sobre uma pessoa portanto não alise seu cabelo só porque a sociedade quer.

Na realidade, a sociedade quer impor muitas coisas. Não é só sobre sua raça e sobre seu tipo de cabelo, mas eles vão falar se você é gordinha(o) ou se é magrinha(o) e se você se encaixa nesse padrão que a sociedade quer colocar para você. Se você está acima do peso ou abaixo dele cabe a você decidir o que vai fazer, cabe a você decidir se vai deixar o seu cabelo ser livre ou se vai colocar as correntes e deixar o seu cabelo liso. É critério seu. Mesmo que a sociedade queira te dizer o que fazer e como fazer, não necessariamente você tem que aceitar as imposições feitas por ela!

Não tenha medo de ser negro. Essa cor é linda, pena que muitos têm vergonha em dizer que são negros. E lembre-se: ninguém tem o direito de te chamar de macaco por causa da sua cor.

Então, lembre-se que quando você diz que é negro primeiramente você está declarando que aceita ter essa cor e depois declara o seu amor-próprio, afinal, não basta ser negro, é necessário praticar o amor-próprio! Solta esse cabelo sem se importar com a opinião alheia. Talvez a sociedade não saiba o que é belo.

Negro é gente e merece ter o mesmo direito e respeito que um branco possui!
Andressa Jesus tem 17 anos, ama escrever e é uma das alunas do Projeto Elisas 2017 - Oficina Literária Para Meninas.

Quando nova, ouvia essa canção em todo evento escolar. Eles me diziam que esse era o tipo de música que crianças deveriam ouvir. Fazíamos encenações em cima dela e cantarolávamos na hora do intervalo das aulas. Mas a vida nunca perde a ironia e, dez anos depois, cá estou, perguntando a mim mesma o que faria se essa rua fosse minha. Essa mesma, que estão querendo esvaziar.

Pergunto-me nesses termos porque do jeito que dizem, eles do lado de lá, é como se ela não fosse mesmo minha. Ou nossa. Se eu paro de imaginar como seria a rua sendo minha e começo a agir como se ela já fosse, eles vêm, do lado de lá, pra dizer que não pode ser assim.

Daí dizem que tem abaixo-assinado, que tem outra gente que também é dona da rua, que tem que ser assim. Tudo bem... Ocupar a rua nunca deixou de ser uma luta, né? Viver é isso. E aí eu me respondo. Se essa rua fosse minha, não mandaria ladrilhar não, muito menos com pedrinhas de brilhante. Sendo minha, talvez colocasse uma mesa pra vender livros, uma caixa de som pra declamar qualquer poema que fosse - ou reclamar qualquer poema que fosse.

Talvez, sim, deixaria as mesas lá. É só um objeto e, em sua ausência, os boêmios bebem, brigam e falam mal de quem quiserem ali mesmo, em pé. Mas eu as deixaria. É instrumento de trabalho. Não só do garçom, mas de todo aquele que ali se senta. Trabalho de quem se apoia, se escora nela, tentando esquecer um amor doído; ou de quem diz coisas como "vamos lançar uma revista juntos?". E depois lançam. E como você vem aqui na minha cara me dizer que não é cultura isso? Não é trabalho isso? Não é povo?

Pois bem, se essa rua fosse minha, eu mandava deixar do jeito que tá. Com essa gente circulando mesmo, fazendo samba, feira, figa e amor. É que é essa gente, que sou eu também, que faz a rua ser o que é. Sem essa gente não tem rua, não tem feira, muito menos cidade para chamar de sua.

“É verde e rosa a cor da tua bandeira
Pra mostrar a essa gente
Que o samba é lá em Mangueira”

Atravessou o asfalto branco como quem anseia pelo sinal verde. E, de verdade, anseia. Os cachos bagunçados, arrepiados, batendo com força na camisa azul marinho do uniforme de Carnaval. O corpo rasgando o vento, que já dera tanto trabalho às portas-bandeiras naquela noite. Cruzou o segundo recuo da bateria como se não desse a mínima para o samba. Mas dava! Do primeiro, nem pode acompanhar, porque a escola já havia chegado. Precisava se apressar. Sinal verde. Ouviu os fogos estourando atrás de si. Arquibancadas em pé.

De repente, parou.

- Eu menti.

De poucos centímetros mais alto, talvez quatro ou cinco, partiu um olhar surpreso, quiçá questionador. Conheciam-se não faziam três meses, desde uma noite no Largo da Carioca. Ele, após um encontro com uma ex-BBB. Ela, após a feijoada da Mangueira. Nenhum dos dois fazia ideia de como se perdera ao ponto de chegar ali. Não era caminho para ambos. Mas conversaram, e foram embora no mesmo metrô.

“Sonhei que nessa noite de magia
Em cena, encarno toda poesia
Sou abelha rainha, fera ferida, bordadeira da canção”

Era de madrugada quando ele a levou em casa, outro dia. Se despediram no portão do prédio baixo, de quatro andares e um terraço. Ele fez questão de levá-la até a porta. Diante do medo, ela se virou antes de trancar o cadeado. Ele tinha esperado, observando de longe, na esquina. “Obrigada”, disse, quase sussurrando. Com meio sorriso e um aceno de cabeça, ele respondeu.

Desde então, não se viram mais.

- Eu sou Mangueira.

Ser Mangueira, para ela, não é só torcer por uma escola de samba. É algo que transcende as razões da própria existência, que questiona o sentido de pertencimento, que põe em cheque toda sua história até então.

Na verdade, tinha dito a ele que mal se importava com Carnaval. Parecia o mais correto para quem trabalha nos dias de folia. Por que, então, estaria ali? Respondeu que era só pelo dinheiro. Por que conhecia todos os sambas? Ossos do ofício.

Não convenceu, mas ele aceitou.

- Eu sei. Eu percebi. Você não consegue esconder.

Conheceu-a no momento em que a ouviu dizer, com tanta paixão, lágrimas nos olhos e como se se livrasse de um peso, o nome da sua escola do coração. Era como se desnudasse toda a sua alma, como se abrisse o baú de todos os seus segredos. No caso dela, ser Mangueira explica muita coisa.
Dele, ela não sabia a escola do coração, muito menos o time para o qual torcia. Apenas alguns detalhes sobre trivialidades: que assistia House of Cards, que leu Vidas Secas, que sua cor preferida era o verde e que torcia pro boi Caprichoso. Ela, embora nunca tivesse ido a Parintins, era Garantido desde sempre.

“Sou trapezista num céu de lona verde e rosa
Que hoje brinca de viver a emoção
Explode coração”

Ela era um livro aberto. Talvez, um livro aberto em mandarim. Para ele, foi fácil. Bastou um olhar um pouco mais apurado, meias palavras trocadas e algum momento ouvindo o samba de exaltação da verde e rosa.

- Vem comigo?

Não precisaram ir. Foram levados pela maré do arrastão do povo que festeja a Mangueira. Encaixou a alegria de ver e de viver sua escola em algum comentário após o desfile, minuciosamente pensado debaixo dos Arcos da Apoteose.

Felicidade, naquele dia, se tinha nome, era o dela.

Escrevia bem e, para uma iniciante no ofício, até que teceu bons comentários. Isso foi ele quem disse. Talvez por isso fosse tão fácil de ser interpretada.
Any Cometti é jornalista, mas antes de tudo é mangueirense. Feminista, CAPS LOCK e apaixonada por samba, decidiu colaborar com o blog falando do que mais toca seu coração: o Carnaval.

Fazia tempo que não se viam. Quando uma não estava chorosa pela garganta inflamada, a outra sofria da ausência de carinho numa noite de gripe alérgica intensa. "Quando nos vemos?", perguntou uma. "Quando quiser", respondeu a outra. Chegou o sábado e Uma se preparou para Outra. Ônibus, metrô, trem. Finalmente, chegou ao litoral do litoral.

Outra se arrumava não muito meticulosa para o que quer que fossem fazer naquele fim de semana sem doenças respiratórias. Uma só queria usar de novo seu batom vermelho. Era um rito de empoderamento. Ela e esse tal do batom vermelho. Ela se olhava no espelho e repetia algumas vezes elogios a si mesma, a sua índole, a sua beleza, ao seu intelecto, até se amar completamente.

Quando Outra virou a chave de casa, e as ruas esperavam ansiosas pelo que viria a acontecer, Uma disse: "Se Deus decidir ser bom comigo, algum empresário vai aparecer pra me pagar bebidas". Outra riu. Riu, porque além de Uma ser realmente engraçada, esse era o tipo de coisa que vivia lhe ocorrendo sem que fizesse pedidos a deus.

À meia noite, o samba ecoava na voz de todo povo e de Uma que sambava aparentemente feliz. Outra estava cansada e, sentada, observava de longe Uma tentando se divertir. Uma gritou, cantando: "Viveeeeer e não ter a vergonha de ser feliiiiz". E sambava. Não havia sinal de qualquer empresário interessado em bancar Uma e seu batom vermelho. E, à essa altura, não havia qualquer sinal de que isso fosse mesmo necessário.

Uma fechou os olhos sem deixar de sambar. Cantava, parecia ainda mais feliz. Outra estava lá ainda, com sua longneck, quando viu lágrimas descendo e contornando o sorriso fraco da amiga que seguia rindo, sambando e cantando que a vida "é bonita e é bonita".

Ato 1

Eu tinha 10 anos. A maioria das pessoas da minha rua eram flamenguistas. Eu entre elas. Final do campeonato carioca e nós tínhamos programado uma festa toda decorada com bandeiras do time. Mas estava no segundo tempo e pelo jeito o flamengo não ia ganhar. Eram mais de quinze crianças sentadas intercalando entre-olhadas e olhares aflitos para a enorme tv de tubo. Meu coração quase saltava pela boca. Eu, sempre tentando amenizar, queria dizer que a gente podia fazer a festa mesmo assim e comer o bolo e tudo ia ficar bem. Mas a frase ficava entalada da minha garganta e com certeza o bolo também ficaria. Mas Petkovic fez um gol aos nos últimos minutos e o grito de todo mundo saiu como foguetes pela sala, encheu a casa e durou a noite toda. Nos juntamos com mais outras pessoas e ficamos dando voltas pela rua cantando o hino do flamengo, nos abraçando e jogando bombinhas pelo chão.

Ato 2

Quando eu tinha oito anos eu sai na capa do jornal carregando um cartaz pedindo paz em uma marcha do dia da bandeira que a escola estava promovendo. Ninguém entendeu muito bem o que eu estava fazendo, por isso o repórter me entrevistou e chegou a conclusão que aquele era um apelo de uma criança por causa da violência no bairro. Eu não sei se foi isso mesmo, mas de lá pra cá eu venho tentado estar no meio de tudo que busque, de alguma forma, uma sociedade no mímino mais de boa. Minha primeira “grande marcha” foi uma sobre o aumento da passagem em 2009. Eu nem sabia bem quem estava organizando e como eu tinha ido parar ali. Mas eu sei que muita gente levou spray de pimenta e bomba de gás na cara. Depois de uma dessas sessões de tortura autorizada e respaldada pelo estado, a marcha dispersou. Mas as pessoas foram voltando aos poucos. Fazendo uma barreira que protegia os mais atingidos. Uma das pessoas começou a bater palmas em um ritmo quatro por quatro. Eram só palmas. Palmas ritmadas. Mas eram muitas palmas. E elas entraram em sincronia muito rápido. Todos muito juntos. Cem pessoas pareciam um milhão. Meus olhos marejaram a minha pele arrepiou em instantes. As duas pessoas coladas em mim também tinham se arrepiado. Eu não precisei olhar nos olhos delas para saber que estavam todos iguais.

Ato 3

Festa de São Sebastião. Eu tenho um fraco com tambor porque eu acho que eles cedo ou tarde, batem junto com o nosso coração. Tinha tanto simbolismo ali, que meus olhos já não acompanhavam. Tinha gente rindo. Gente rodando, gente brindando, gente chorando. Tinha uma senhora que passou todo o percurso com olhos fechados e um terço na mão. Mas mesmo ela, em determinada hora, entrou no ritmo do congo que é ao mesmo tempo muito individual e muito coletivo. Porque não existe regra e nem forma apropriada de dançar. Você só segue o seu corpo e de repente você faz parte de um só corpo formado pela caravana. No meio disso tudo, um homem carregava uma criança nos ombros. A criança, que devia ter no máximo dois anos estava dormindo, porém sorrindo. Ao longo da caminhada, ela foi sendo passada para várias pessoas. Nem ela nem as pessoas - que carregavam o peso da criança nos ombros - tiraram o sorriso do rosto.

 Desfecho

 O ônibus lotado, as filas nos bancos, as esmagadoras aglomerações nas festas, os elevadores, as lojas na véspera de natal, a praia do sábado de verão e tantas outras situações cotidianas vão tentar te convencer de que cheio é ruim. Que multidão é chato. Que é melhor ficar em casa. Ir para o meio da floresta. Para cima de uma montanha. Mas não somos tigres. Não somos cobras. Não somos corujas. Nós nascemos para viver em bando. Mas não se engane. Esse bando não é sua família Não é seu bairro. Não é sua escola. Não é seu emprego. Bando é onde a nuca arrepia e não onde o coração aperta.

Eles vêm aqui todo domingo. Dizem que é a cerveja mais gelada da cidade e né por nada não, mas eu também acho e queria dizer pra todos eles que continua sendo. O samba começa e todo mundo finge que é igual. Todo mundo esquece que é diferente. E fica lá, sambando, pagode ou de raiz, num importa. O pandeiro canta, ihh, a noite toda. E continua cantando, queria dizer, se pudesse. Uns descem de carro. Outros, a pé. Tem dias que não fica tão cheio, porque o terreiro tá em festa. E sobem todos eles do mesmo jeito. Sem medo. Ou fingindo que não têm medo. Eu sei lá. Mas agora tá diferente. Não vou te dizer que essas coisas acontecem, filha, porque nunca vi desse jeito não. Podia tá como fosse que o povo vinha aqui. Mas, agora... É que eu mesma tô com medo, sabe, filha? Vê se pode, eu? Sempre abri o bar sozinha, ficava até madrugada com esses home bêbado aqui do bairro. Mas é que sempre foi tudo no respeito. Não sei, mas agora parece que tá diferente. Ontem mesmo tentaram invadir o mercadinho da Silvia. Poxa, logo a Silvia, todo mundo conhece ela. Não era pra ser assim. Se eles soubessem que por aqui sempre foi difícil, acho que nem vinham... Acho que não vinham, não. Agora que sabem como que é, aí que não vêm mesmo. Pior que tô com medo junto com eles. Mas lá ainda dá pra andar, né... Aqui tá pior. Aqui corre o risco da bala perdida te pegar ou sei la cê pode ser confundido com bandido que nem o neto da dona Penha, o Julio. Coitado... Era um menino bom, fazia mal a ninguém. É só tristeza e medo, agora, filha. Mas vai passar, há de passar. Oxum me contou que vai passar, então, tem que passar. Né?

[Em memória de Júlio dos Reis, 17 anos, Julinho, como lhe chamou a avó dona Penha. Um jovem com deficiência que foi confundido com um ladrão e linchado na rua, no bairro Flexal I, na última quinta-feira, dia 9]

Acordei com o sol batendo na cara. Nada novo, né? Mas sei lá, hoje eu queria ficar de boa. Acordar tarde. Ontem eu andei de um lado para o outro. Ninguém queria saber de comprar nada. Geral correndo. Geral sem olhar. Não tinha ninguém na rua. Mas eu também já sabia que isso ia acontecer. Nessas horas nego quer ficar com a família, né não? Mas os PM também não tá era meio novo pra mim. É claro que eles deviam estar lá, em algum lugar, na espreita, sem farda. Mas eu não conseguia ver e isso é foda. “Vai rolar muito assalto”, geral tava falando. E eu fiquei com medo. Não de algum levar algo, porque é aquele lance, eu não tenho nada. Só tenho essa cara de noia mesmo. E essa que á a merda. Ser confundido com bandido. E hoje eu não podia nem comprar minha caixa de bala. Porque ta tudo fechado. Merda. Eu devia ter comprado antes. Eu sabia que isso ia rolar. Eu não andei correndo, eu não mudei minha rotina. Eu não entrei em casa e nem tranquei porra nenhuma. Minha casa não tem tranca. E nem porta. Eles chamam a gente de menino de rua. Mas essa rua não é nossa. Meninos de rua são eles, os que mandam nela. Os que podem sair dela quando querem. Durante o mês de dezembro geral abre seu lado papai noel e resolve fingir que eu existo e preciso de comida, de carinho de brinquedo e da porra toda. Mas hoje, na frente da mesa lotada de comida e pisca-pisca, as reza são só por eles. E eu sou o Menor dos problemas.

"Às vezes, a gente se perde, sabe?". Ele me disse como se eu não soubesse disso. Os anos que eu tinha a mais me davam certa vantagem, mas, quando esse sentimento de abandono invadia, a gente se olhava e ficava assim mesmo, sem resposta.

Lembrei de Alice que, sem saber para onde queria ir, ouviu do sábio gato as palavras que tem me servido de mantra desde a infância: "Sendo assim, qualquer caminho serve". De fato, o gato de Cheshire é muito mais sábio do que o Pequeno Príncipe, chatíssimo com suas lamúrias carentes.

Enfim, a coisa é que vi um monte de fios de cabelo pelo chão do banheiro e isso não me irritou nem um pouco. Deixei estar. Decidi ser compreensiva comigo mesma e, na ausência de qualquer outro para julgar, sentir a redenção. Mas, com ela, a dúvida. Perguntei ao gato: "Como faço para sair daqui?".

Como faço para deixar esse sentimento de abandono? Como faço para dar conta de ser independente, cuidar da casa e ainda bem resolvida emocionalmente com a vida, com os amores e com o passado? Ele, como era de seu feitio, me perguntou onde eu queria chegar com isso e eu disse que não sabia. Voltei à estaca zero. Qualquer caminho me serve, qualquer caminho sempre me serviu.

Certo. Senti saudades de outros caminhos, mas entendi o gato. Este é agora o meu caminho e há o que descobrir nele. Assim como Alice descobriu.

Notei a comida estragada na geladeira, o lixo a ser retirado e o calendário. Dei asas ao tempo e me pendurei sobre o passado por alguns instantes. A menina de 12 anos que eu era jamais pensaria em estar aqui, exatamente agora. Muito menos a mulher de um ano atrás. A de 12 pensava em esquecer o primeiro amor. A ferida ardida que doeu meses a fio.

"Besteira", dizia a mulher de um ano atrás.

E eu fico aqui tentando entender o que temos em comum. Eu, a de um ano atrás e a menina. Acho que é isso. Alguns anos nos separam, desejos e lugares nos diferenciam, mas continuo perguntando ao gato: "Como faço para sair daqui?".