Tinha as mãos e o coração no bolso. Na bagagem, poucas certezas, daquelas que não cabem em posts de facebook. Já as incertezas eram inúmeras, algumas até registradas em cartório. Do que ganhava, pouco ou nada sobrava. Fosse dinheiro, fosse paixão. Era uma péssima administradora. Não queria o fim das coisas, nem falir seus relacionamentos, mas o fato é que, mesmo depois de tanto tempo, não sabia calcular os riscos, nem prever os gastos. Era assim: desapegada e apegada ao mesmo tempo. Foi então que, num instante, decidiu ir. Decidiu, assim, na cara dura, como quem decide comprar pão tendo notado que os que ainda restavam mostravam-se murchos ou duros. E, com uma caixa de ansiedade na mala, já sentindo saudade dos seus e se apaixonando de antemão pelos futuros amores, mais uma vez, ela foi. Só foi.

Havia tempos que não acendia um cigarro. Pobre Ana, sempre em busca de alguma anestesia. Inacreditavelmente, fazia frio na cidade maravilhosa. Vestiu seu fino casaco e, entre uma tragada e outra, esperou o ônibus, solitária.

Evelin optou pelo batom roxo quase preto naquela noite. Já havia bebido duas longnecks enquanto se arrumava. Um short curto, uma blusa rasgada e seu allstar velho surrado. Perfeito.

Alice queria terminar de assistir a última temporada de Breaking Bad, mas Maria Helena parecia realmente triste ao telefone. Um vestido florido lhe bastou.

A protagonista da noite - e de todas as outras noites - pôs-se dentro de seu vestido mais justo. Na boca, o vermelho saltava. Os olhos delineados esperavam as lágrimas que certamente viriam após duas ou três doses de tequila. Jose Cuervo Gold, "porque eu tô merecendo" - disse a si mesma ao se observar no espelho.

- Porra, Lena. Você gosta de ser trouxa mesmo - Essa era Evelin.
- Não fala assim. Às vezes, é difícil deixar quem a gente ama. Te entendo, amiga - Essa era Alice.
- Super entendo - Essa era Ana que, após dizer, riu e virou o resto da cerveja que estava no copo.
- Ele parecia tão sincero no início. Qual é o meu problema? Eu.. - Essa era Maria Helena, já ameaçando chorar.

Ana ouvia o relato choroso de Maria Helena com uma dorzinha no fundo do peito. Estava passando pela mesma situação, mas se negava a compartilhar com as amigas. Negava-se a deixar que vissem sua frustração assim tão de perto.

Alice havia se apaixonado apenas uma vez na vida e foi correspondida por um tempo. Mas agora já não era mais e entendia um pouco Maria Helena, apesar de julgar desnecessários seus ataques exagerados de ciúmes.

Evelin achava graça de tudo. Não entendia a lógica em se envolver com um cara que obviamente é cilada e depois ficar chorando as mágoas na mesa do bar. Para ela, os homens só serviam pra lhe dar prazer e, nessa função, considerava as mulheres muito mais eficazes. Mas, apesar de tudo, tinha empatia pela dor de Lena e decidiu dar um basta nisso.

- Gente, lembra quando a Lena se jogou na frente do carro daquele ex-namorado dela? Quebrou a perna por nada, porque hoje fulano é assumidamente viado. Porra, Lena. Só faz merda - disse Eve, rindo até se engasgar. Ana riu tanto que as lágrimas desceram. Alice riu um pouco e olhou procurando a aprovação de Lena que, limpando as lágrimas, deu um leve sorriso.

- Vai se foder, sua vadia. Posso ser a louca apaixonada, mas e você que depois de acordar na cama com três pessoas desconhecidas me ligou desesperada por uma carona? Que situação - E ria de fechar os olhos.

Beberam juntas uma dose de cachaça e o resto da noite foi assim, de risada em risada, de lembrança em lembrança, de parceria, cumplicidade, compreensão, amor e amizade.

Na ressaca do dia seguinte, Lena procurou o número de ciclano, mas não achou. Evelin havia deletado todas as fotos, números, e-mails e mensagens dele. Maria Helena riu e uma lágrima de felicidade caiu bem devagar.

Izabel gritou de leve na calçada ensolarada a pedir que o ônibus abrisse a porta do meio. Abriram, subiu. Munida de seus cinco filhos pequenos e mirrados de tão fininhos; e uma de colo, negra de cabelos crespos muito loiros e esvoaçados. Izabel esticou-se numa rapidez impensada para que seus pares de braços e pernas servissem de corrimãos e escoras para os cinco pequenos mirrados no chão. Cada um deles arregalava as atenções em busca de assentos vazios para sentarem-se. Nenhum deles achou, nem a mãe. Izabel teve de pedir para acomodá-los no assento preferencial, onde conseguiu juntar num só banco suas cinco crias espertas – que agora já se deleitavam com o vento fresco da janela.

Izabel ficou de pé enquanto várias pessoas a julgavam com o olhar, de cima a baixo. Do chinelo branco encardido ao cabelo crespo alaranjado de sol. Todos. Todos olhavam. Houve até um senhor que usou do olhar gélido para reprovar a quantidade de filhos de Izabel. Ato que não surtiu efeito na imagem calejada dela que, apesar de exalar certa juventude, carregava mesmo era muita vida naquela pele áspera. Saiu de perto dos filhos para pagar a passagem, mesmo sendo vista como ‘uma dessas que pula a roleta quando convém’.

A cada solavanco as crianças riam alto. A cada freada brusca Izabel mantinha-se fixada de frente para sua prole de cinco, com a sexta agarrada em seu colo – não nos esqueçamos da sexta filha. A senhora ao lado das crianças estava visivelmente incomodada com a situação. Decidiu levantar-se então, mas não antes de resmungar baixinho alguma besteira de reprovação sobre a cena. Obviamente Izabel nem lhe deu ouvidos ou olhares. Sentou ao lado dos filhos com a pequena chorona no colo. Chorona porque queria mamar. Izabel sacou logo o peito para fora e aliviou a menina enquanto aproveitava o certo silêncio para olhar o celular.

“Nossa, que isso!”, falou a mulher a prestar atenção na cena. Uma mulher reprovando outra mulher. Essa era a cena. Os homens, dois deles, olhavam era o peito de Izabel com aquela cara de ‘essa mina tá dando mole’. Só que Izabel para ninguém dava confiança. De repente adentra no ônibus uma daquelas marionetes vestidas com a blusa de uma casa protestante de recuperação para dependentes químicos, gritando que o deus cristão salvou a vida dele; que ele agora é um homem correto e livre das drogas – apesar de não entender ter trocado o vício da cocaína pela religião, igreja, cultos…

O homem berrava soltando perdigotos. Um desses foi parar bem no rosto de Izabel, interrompendo a distração dela com o celular. Sim, Izabel reprovou aquela saliva indesejada em seu rosto. Encarou o homem e disse bem alto: Cê cuspiu em mim!. Não, o homem não pediu desculpas. Ele alegou que o deus age por ele e aquele perdigoto foi enviado para ela prestar atenção na palavra do deus. Sim, os passageiros riram todos, menos Izabel, que o chamou de porco nojento e logo recebeu uma resposta: ‘sem deus no coração a gente só padece fazendo coisas erradas e depois pagamos com um monte de filho passando fome’.

Izabel fez o homem descer com as canetas coloridas ainda não mão, escorraçado e acuado. Mesmo na calçada ele continuava a gritar que ela estava pagando pelo escárnio que faz na terra. Os filhos ficaram todos quietinhos vendo a mãe se exaltar e depois voltar para eles. Os passageiros nem sequer moveram um dedo. Aliás, moveram sim, alguns deles estavam filmando tudo com o celular para colocar na internet. A menina no colo de Izabel chorava e chorava tanto que começaram a reclamar, mas Izabel seguiu calada para seu trajeto.

O homem na calçada também seguiu. Foi para a casa jantar com Irene, a esposa, e seus dois filhos adolescentes que ainda não sabem que o pai tem mais quatro filhos largados e abandonados com as ex-mulheres pelo mundo, iguais aos perdigotos que cospe pelas ruas e geram o incomodo de cada dia. Por não saberem, eles acolhem o pai lhe descalçando os sapatos, servindo às mãos a janta e arrumando a toalha para o banho, não sem antes escutar uma leitura bíblica que prega sobre a união da família.

Magalli S. Lima é jornalista e também se atreve a prosear. É uma querida, empoderada e a nossa convidada do mês.

Carolina teve um sonho. Mas antes do sonho vamos falar da vida de Carolina.

Todo dia ela sai de casa as oito da manhã e volta oito da noite.Sua cidade não é realmente uma grande cidade, mas é grande.Ela trabalha em dois empregos e, mesmo que tenha ouvido a vida toda que arte não é trabalho, se sente exausta no final do dia. Carolina não gosta de ir para o trabalho. O problema não é exatamente no emprego, mas no trajeto. Todo santo dia passar por aquela avenida em obra às sete da manhã e ter que ouvir cantadas e desaforos mata seu animo pouco a pouco. Mesmo que tenha uma exposição nova na galeria. Mesmo que um aluno lhe diga que quer ser desenhista. Tem vezes que ela não consegue se animar. A volta não é melhor. Da descida do ônibus até girar a chave de casa ela teme não conseguir chegar a maçaneta. Carolina ama os dois empregos. Mesmo que eles lhe deixem tão cansada. Mas ela murcha algumas vezes. Quando um professor esqueci de deixar lanche para os outros. Quando os artistas não cumprimentam os porteiros na galeria. Quando dizem para seus alunos homens que arte é “coisa de bicha” e para as suas alunas que os grandes e melhores artistas são homens. Ela não vê o porquê disso. Exatamente por ser tão inteligente, ela não entende o porquê de muita coisa.

Mas Carolina vez ou outra sai da sua rotina e vai para outra cidade. Nessa cidade, as mulheres voltam todas juntas do trabalho, da festa, ou de onde for. A segurança física é mais garantida, claro, mas a emocional é que importa mais. E essa fica intacta. As pessoas dessa cidade valorizam todo tipo de trabalho. Eles sabem o quanto é difícil ter um. Ainda mais um onde você se sinta bem. As pessoas conversam. Realmente conversam. Ouvem o que o outro tem a dizer, mesmo que não concordem. Elas pensam no todo. E em si mesmas como parte do todo. Os homens respeitam as mulheres não porque poderiam ser suas irmãs, mães ou filhas.Mas por serem humanas. E as mulheres cuidam umas das outras porque entendem que assim se chega ao equilíbrio.

Voltando ao sonho: Carolina sonhou que as duas cidades fossem lugares distintos. Que ela poderia simplesmente se mudar para a segunda cidade e viver lá para sempre. Mas infelizmente não são. E ela tem que lidar com isso. O mais importante é que Carolina acordou. Tendo plena consciência, de que nenhuma transformação se faz em casa. Muito menos dormindo.

- Foda-se! - falou baixinho como se não quisesse ser ouvida. Levantou e foi até a janela acender um cigarro. Não se considerava fumante e tampouco gastava dinheiro comprando maços de cigarro, mas estava bêbada o suficiente para aceitar o desejo de fumar sem pestanejar.

Ele tinha o semblante cansado, meio triste talvez. Questionava-se mentalmente a razão de ainda aceitar todo aquele drama que, há meses, vinha se repetindo incansavelmente. No fundo, ela estava também um pouco cansada da própria loucura, mas sentia que não tinha forças para fugir do seu papel.

Ele decidiu acender um cigarro também e fumou sentado em sua cama.

- O que tá acontecendo? - ele perguntou.
- Nada. - ela.
- Nunca sei se posso seguir a minha vida, porque você sempre resolve aparecer. - ele.

Silêncio. Tragadas. Fumaças.
Começou a chuviscar.

- Evelin...
- Hm - tinha os olhos marejados. Tentava entender a si mesma. Bater à porta dele às três da manhã, bêbada. Por quê?
- Você sabe o quanto eu gosto de você, não sabe? - Foi só aí que ele notou que ela tinha os olhos cheios d'água.

Ele se levantou. Ela virou o rosto. Ele se aproximou. Ela chorava. Ele a abraçou, pelas costas, e assim permaneceram.

- Você precisa entender que eu gosto de você assim, desse seu jeito. Eu só preciso saber se você permite que eu cuide de você ou se me quer longe da sua vida. Só isso.

Ela tinha o hábito de se autoanalisar e já havia pensado nisso centenas de vezes. Era desgastante. Tinha que lutar contra esse comportamento que, por um tempo, acreditou ser natural, essa mania de se sabotar, de repelir qualquer carinho, de abafar qualquer afeto. Imaginava que fosse algum medo ou alguma coisa assim. E isso fazia com que se sentisse ainda mais estúpida. Deixar de viver por medo.

Virou-se para ele, ainda chorosa, e riu. Ele riu também. Ficaram ali, trocando olhares e fumaças, até que ela abaixou os olhos. Riu novamente porque detestava aquele cordão que ele estava usando.

- Eu queria poder ter mais certeza das coisas. Pra poder ir e me jogar sem medo. Eu sei que é sempre um risco e tal. É que.. - Fez uma pausa. Suspirou. Sentia o coração batendo, reverberando por todo o seu corpo. - É que eu sou meio louca, você sabe. Demoro pra saber o que eu quero, demoro pra ter alguma segurança em alguém. Queria que fosse simples e desculpa as merdas que eu faço. Eu só queria que você soubesse que eu também gosto muito de você.

Eles se abraçaram por um bom tempo, mas começaram a rir porque algum vizinho estava ouvindo Pablo naquela madrugada.

- Comprei vinho hoje. Quer dormir aqui? - ele.
- Quero. - ela.

Ter tempo livre é foda. Dizem que eu deveria aproveitar e voltar a escrever. Talvez eu devesse mesmo. Até tenho algumas coisas naquele caderno e uns outros rascunhos em algum lugar por aqui, mas não lembro onde. Tenho quase certeza que passei alguns para o computador, mas são tantas pastas e arquivos... Caralho! Onde essa merda foi parar? Será que aquele poema que me veio do nada numa noite dessas eu anotei neste livro? Não, nem neste e em nenhum destes aqui. Cadê os meus post its com aquelas idéias para contos? Não acho mais nada, nem o meu caderno eu sei onde está. Será que joguei tudo fora? Eu tinha certeza que estava nesta gaveta ou será que guardei no armário da sala? Melhor mesmo é começar tudo de novo. Mas, primeiro tenho que arrumar essa bagunça e tomar banho, e também dar comida para gata e escovar os pelos dela e tenho aquela louça suja e já estou morrendo de fome. Depois disso, quem sabe eu abra um vinho e volte a escrever, mas só depois, só depois.


Lívia Corbellari é jornalista cultural e também arrisca a escrever algumas crônicas. Está sempre em busca de algo que a inspire a escrever.

Beijamin nunca foi uma criança comportada. Nunca foi calmo. Não comia bem. Chorava muito. Muito. Batia nos mais velhos sem motivo. Arremessava brinquedos pela casa. Ele ouvia muitas comparações entre nós. Eu era obediente. Eu prestava atenção. Eu não bagunçava a casa. Mas apesar dele sempre ouvir que ia “morrer” quando subia em muros, pulava de lugares altos, brincava com fogo e etc, a culpa não foi dele quando um caminhão veio a 130 KM por hora em um cruzamento e atingiu nosso carro.

Meu irmão tinha dez anos e eu tinha doze. Eu só lembro de acordar do hospital e ver um bocado de gente do meu lado. Ninguém realmente me contou. Ou eu estava zonzo. De repente, eu estava num velório ao lado de um caixão pequenino, branco e fechado. Por dias, ninguém falou nada sobre. Por meses, eu diria. A casa parecia artificialmente desbotada e naturalmente silenciosa. Mas com o passar do tempo, o nome dele voltou a ser mencionado.

A primeira vez foi num jogo do botafogo. Meu tio citou que Beijamin jogava muito bem. Um talento nato. Meu pai disse que ele podia ter seguido carreira. Já estava na escolinha há dois anos. Era o sonho do meu pai ter um filho jogador profissional. Outro dia qualquer, minha avó comentou que ele estaria fazendo treze anos. E com essa idade “Obviamente já teria um monte de namoradinhas”. Lógico, ele era tão lindo, tão falante, tão engraçado.

Eu sempre tirei notas ótimas. Principalmente em matemática. Então meus pais sempre acharam que eu seria o “empresário da família” enquanto Beijamin seria o “bon vivant”. Mas eu gostava muito mesmo de matemática. Tanto que quis fazer isso: ensinar. Meu pai nem esboçou um sorriso quando eu passei no vestibular. Na minha festa de formatura, depois de um Whisky e outro, meu pai disse: “Depois de amanhã o Beijamin faria vinte e três anos. Com essa idade acho que ele já estaria jogando na Europa”.  Eu acenei. Concordei.

No dia do enterro do meu irmão, eu olhei bem para os meus pais. A expressão deles era tão devastada que eu acreditei que eles nunca mais voltariam a sorrir. Então, eu tenho certeza que perder um filho é a pior coisa que pode acontecer com alguém. Mesmo com doze anos eu entendi isso. Mas, ao mesmo tempo, existe um certo tipo de orgulho macabro. Um filho morto não mata suas expectativas. Ele não decepciona. Todas as suas qualidades estão intactas na memória dos pais. E todos os defeitos sete palmos a baixo da terra.

Na foto, via-se ao lado de sua mãe quando ainda era só um protótipo de gente. Sorriu ao lembrar das viagens repentinas, dos passeios de barco, da água de côco e do picolé de cajá que sempre pedia àquela mulher a quem chamava de mãe. Muitos anos se passaram desde o tempo da fotografia e de imediato notou como perdera boa parte de sua inocência.

Sentada no pé de uma das inúmeras árvores da cidade, segurava um livro de Virginia Woolf e a foto funcionava ali como seu marca página. Sentia saudades da mãe. Dona Beth. Uma lágrima ameaçou descer, quando lembrou da ingenuidade com que reagiu a um olho roxo, anos atrás.

Era verão, período de férias escolares. Beth havia acabado de chegar de viagem e trazia no rosto um roxo olho que saltava. Na época, tinha deixado Ana com uma babá de confiança. Ana não entendeu. Ainda não tinha maturidade para entender o que era a violência e seus motivos e suas consequências.

A mãe gentilmente lhe disse que havia sido alvo de uma bola perdida. Moleques que jogavam futebol no meio da rua, fingindo o gol com pares de chinelos velhos. Dias depois, a realidade veio e socou Ana igualmente havia feio com Beth. "Não foi uma bola, foi o meu namorado".

Agora, Ana sorria com os olhos marejados, um pouco triste e um pouco feliz por ter perdido aquela pureza.

Talvez, pensou, tenha sido ali o início de toda uma trajetória que a levou a se sentar sob uma pomposa árvore numa tarde de verão atípica, com um livro de Virginia Woolf nas mãos. Foi lá, naquele tempo, aos 8 anos de idade, que se iniciou o desejo de que mulheres fossem tão respeitadas quanto os homens. Em sua cabeça de criança, nada justificava aquele olho roxo em Beth. Não entendia. Seria uma punição? Pelo quê?

A partir daquele momento, então, passou a existir um elo inquebrável e inegociável entre Ana e sua mãe e todas as mulheres de todos os tempos, algo que ainda hoje ela não sabia explicar.

Da mesma forma que, em seu livro, Woolf reclamava de que sua mãe não investira em negócios e educação, Ana intrigava-se com a resiliência da mãe. E da mesma maneira com que a famosa escritora reconhecia as impossibilidades de suas ancestrais terem feito o que ela queria que tivessem feito, Ana sabia que enquanto Beth não soubesse a fortaleza que era, aceitaria qualquer punição que fosse por ser mulher.

Fechou o livro. Chorava feito uma criança. Pegou o celular e mandou uma mensagem pra Beth que dizia "Enquanto eu viver, você não estará sozinha".

Recompôs-se e seguiu o resto da tarde lendo Virginia Woolf, agradecida pelos esforços anteriores que a permitiram fazer exatamente o que estava fazendo naquele momento.